junho 14, 2010

Insuficiência respiratória: escritor Ascendino Leite morre aos 94 anos em João Pessoa




O escritor paraibano Ascendino Leite morreu ontem em João Pessoa de insuficiência respiratória e miocardiopatia isquêmica, aos 94 anos.



Ele estava internado há 18 dias no hospital da Unimed, após apresentar quadro febril e cansaço, segundo revelou a secretária Ivonete Belarmino, que trabalhou com Ascendino nos últimos 16 anos.



Natural de Conceição do Piancó, Ascendino Leite era escritor e jornalista. Dirigiu importantes jornais do país como a Folha de São Paulo e foi um dos fundadores do Correio da Paraíba.



Publicou uma obra de 52 volumes, entre eles o Jornal Literário, uma espécie de diário do qual se orgulhava de escrever sobre os principais fatos acontecimentos, sob seu ponto de vista. Uma simples visita de um amigo era motivo para registro.

Ascendino Leite

Ascendino Leite se iniciou na litertura, através do jornalismo, aos 17 anos, tendo sua primeira experiência no Jornal O Norte, de João Pessoa. Desde então coleciona uma vasta obra na qual se notabilizou como ensaísta e criador dos famosos volumes do jornal Literário. Além de romancista consagrado nacionalmente em obras como A Prisão, O Brasileiro, A Viúva Branca, O Salto Mortal, há alguns anos incursionou definitivamente pela poesia. Poesias Reunidas(1999) é a reunião de suas quatro obras poéticas Jardim Marítimo, Visões do Vate (motivo de uma exaltação de Antônio Houaiss), Os Juízes e O Nariz de Cíntia.O escritor reacionário

Ainda transtornado com a notícia da morte do amigo filólogo Antônio Houaiss (março de 1999), o escritor paraibano Ascendino Leite iniciou a entrevista num clima de incontida revolta, mesclada com o sentimento de perda irreparável. Rememorando a qualidade e importância literária do trabalho de Houaiss, ele lamentou as poucas referências acadêmicas que se tem sobre o trabalho do amigo, aqui na região. Com a licença poética para se assumir numa posição ideológica considerada reacionária, Ascendino ratifica essa predisposição através de sua concepção sobre a bibliografia acadêmica que aborda elementos da cultura popular como a literatura de cordel, que considera “campo que abriga uma população de imbecis e iletrados usando a ingenuidade popular para criar alguma impressão de livro”, ou, de modo geral, ao defender o distanciamento, do escritor, da realidade social que o rodeia. É por essa razão, talvez, que ele desaprove o Nobel de Literatura, José Saramago: “Deixaram de considerar poetas importantes do maior apreço e deram o Prêmio a um escritor medíocre”.

Ascendino não se esquiva em modéstias. Com formação jornalística que se iniciou aos 17 anos no jornal O Norte, de João Pessoa, ele passou dos 80 com uma vasta obra que esbanja talento como ensaísta e criador dos famosos volumes do jornal Literário. Além de romancista consagrado nacionalmente em obras como A Prisão, O Brasileiro, A Viúva Branca, O Salto Mortal, há alguns anos incursionou definitivamente pela poesia. Poesias Reunidas(1999) é a reunião de suas quatro obras poéticas Jardim Marítimo, Visões do Vate (motivo de uma exaltação de Antônio Houaiss), Os Juízes e O Nariz de Cíntia.

Embora só depois dos 80 anos tenha se decidido à publicação de sua obra poética, confessa que a inclinação e admiração pela poesia e valores poéticos de um modo geral vêm de muito tempo. “Nem mesmo meus amigos sabiam disso. Mas, o que eu não tinha, mesmo, era ânimo, nem tinha chegado àquele momento especial da eclosão do sentimento poético”.

Diante da profusão literária do país, o escritor confessa não deter os atributos para uma avaliação crítica, especialmente com relação à literatura contemporânea, haja vista a sua vida profissional ter sido mais voltada para a política, em função de sua atividade jornalística se concentrar nessa área . “Primeiro, eu não sou um crítico literário, estou muito marcado pela observação dos fatos políticos que a profissão dominante na minha vida me propiciou, que foi o jornalismo, e o jornalismo político. Então eu fiquei enleado pelo fragor das refregas políticas quase sempre apaixonadas, intolerantes, e aqui e acolá, abrindo perspectivas capazes de levar o cidadão, o verdadeiramente dotado do sentimento de cidadania, a ter um amor especial pelo país e um interesse especial pela política”.

Contudo, como homem de pensamento irrequieto e, intuitivamente perscrutador, ele não se esquiva de uma opinião sobre a área na qual incursiona com lucidez, enquanto criador: “Eu nunca parei para fazer uma reflexão geral sobre a literatura do país, mas no contexto continental , o Brasil fornece a literatura mais sólida, mas consistente, tanto na poesia como na prosa , e, em geral, inclusive nas artes plásticas, com seus expoentes já notórios a partir de Pedro Américo, Aurélio de Figueiredo. No meio dessa agitação, muita coisa foi imperceptível porque naquele tempo, na época dessas figuras que eu citei, não havia esse mecanismo de comunicação que existe hoje. Mas eu sou um entusiasta da literatura do meu país. Eu acho que ela produziu figuras geniais, desde Castro Alves, Álvares de Azevedo e tantos outros”.

E na atualidade, acrescenta: “Ultimamente nós estamos num regime de crise em tudo que se refere ao impulso criador do homem, por que ele logo se choca com as descobertas feitas por meios mecânicos e eletrônicos”.

A turbulência que a modernidade tem provocado, inclusive no comportamento da juventude, é outro aspecto que perturba. Afinal o que poderá alimentar o desejo da criação literária, por exemplo, se ao invés da viagem pela leitura, as novas gerações preferem as contemplações visuais através dos computadores?. “Tudo ficou, por assim dizer, sem muita glória. Como produzir um livro ou um quadro quando o computador ou seus congêneres produzem imagens ou impressões que nos perturbam?. O progresso diminui a nobreza da produção intelectual; aquela que realmente vem do espírito, da capacidade inventiva do homem como ser dotado de condições científicas e de dignidade, que lhe é imposta pela sua origem divina”.

Mas nem tudo é desesperança, na ótica do poeta, sobre o que existe além da informatização do mundo atual:

“Toda essa aparelhagem eletrônica reduz tudo, até as dimensões do esforço instintivamente mental do poeta, do artista plástico, do músico. Tudo vai diminuindo. Mas nesse fermentar de vida que se sobressai de uma desordem mecanizada, sempre resta um lastro profundo de identidade e idoneidade cultural, há sempre coisas boas onde há muita produção”.

“O progresso diminui a nobreza da produção intelectual”

O caráter de diletância é iminentemente associado à criação poética. No caso de um homem ciente de uma realidade social inquietante como a do Brasil e especialmente do Nordeste, há quem espere uma maior influência dessas impressões na sua obra, mas Ascendino, conscientemente, descarta tais características. Embora admire, incontestavelmente, a obra modernista de ícones da poesia brasileira como João Cabral de Melo Neto:

“Eu sou em todos os sentidos, como dizem os meus caros adversários do PT, um ‘escritor reacionário’. De maneira que a poesia, para mim, é aquela que vem do sentimento congênito, ativo, perpétuo, dominante no íntimo do homem. Não essa poesia fabricada, essa poesia que procura o anedótico, pitoresco, a poesia que usa recursos lingüísticos e até altera o sentido e própria estrutura da palavra, essa não é poesia. Isso é produto do facilitário esperto do poeta inteligente, se for o caso de chamá-lo poeta. Eu não dou muita importância… em geral sou desconfiado dessa literatura com imagens absurdas, comparações inaceitáveis. Não sou inteiramente favorável. Mas admito que haja um grande número de pessoas que fazem esse tipo de poesia e conseguem realmente fazer uma obra interessante. Eu excluo disso por exemplo um poeta da dimensão de João Cabral de Melo Neto. Esse, a meu ver, é um dos grandes poetas brasileiros, letrado na modernidade.

O poeta pernambucano é um dos últimos grandes nomes dessa linha literária, segundo o pensamento de Ascendino, para quem nomes como Mário de Andrade, Murilo Mendes, Cassiano Ricardo e tantos outros colocaram a poesia moderna do Brasil no nível das criações poéticas francesas ou inglesas.

Falando na grande literatura mundial, especialmente no contexto atual, o acontecimento recente que marcou a história dessa arte foi o prêmio Nobel concedido a José Saramago, um autor português inclusive bastante voltado para as questões sociais – ele é um comunista -, interrompe Ascendino para refletir sobre o fato.

- Eu vou lhe falar com franqueza. O Prêmio Nobel, ultimamente, com algumas excessões, a meu ver tem sido concedido a escritores de média reputação. Um desses prêmios foi concedido, por exemplo, a um escritor espanhol, que eu considero um escritor de ínfima qualidade, a meu ver um escritor conscientemente pornográfico, ele quer ser pornográfico. O Brasil tem vários escritores que, no tempo em que esse prêmio foi concedido, o mereciam… Homens como Gilberto Freire, Oliveira Viana, Fernando de Azevedo e muitos outros que poderiam receber como Jorge Amado, Pedro Américo, um grande escritor do Brasil ainda desconhecido dos próprios brasileiros chamado Cornélio Pena, são escritores geniais, não são projetados sequer em prêmios menores, prêmios nacionais por exemplo, não foram apontados para eles. Esse último Prêmio, Saramago, que é um escritor interessante, mas não é para Prêmio Nobel. Eu acho que ele não merecia o Prêmio. Isso partindo eu de que quando ele é premiado, outros escritores no continente, da língua portuguesa se avantajam mais do que ele.

Ascendino, efetivamente, não poupa fel na avaliação do Prêmio Nóbel, e especificamente do concedido ao autor do Evangelho Segundo Jesus Cristo. A motivação político-ideológica, e não necessariamente a qualidade literária, segundo ele, é o que motiva a concessão do Nobel a determinados escritores. “Houve um pouco de jogo político-ideológico, meio subalterno. Deixaram de considerar poetas importantes do maior apreço e deram o Prêmio a um escritor medíocre. Mesmo em termos de vivência ideológica e política, ele é um escritor a desejar”

Embora contundente nas afirmações sobre o universo que cerca o prêmio mais almejado da literatura no planeta, Ascendino não se acha suficientemente embasado para opinar sobre a literatura universal ou mesmo citar nomes. “É um campo muito vasto, e eu só sei falar a língua portuguesa., e olhe lá. Eu não conheço a língua francesa, por exemplo…” – Nem mesmo os mais conhecidos? – interfiro – Não, eu não quero avançar, por que nesse rol tem muita coisa pré-fabricada para ser vendida ao leitor comum. -, responde o escritor, referindo-se às grandes promoções da indústria editorial.

Fonte: RODRIGUES, Elinaldo – A Arte e os Artistas da Paraíba: perfis jornalísticos – João Pessoa: Editora UFPB, 2001

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