Brasília faz 50 anos com maior crise política de sua história




Capital planejada e tida como uma síntese do país, Brasília chega hoje aos 50 anos imersa na maior crise política e urbana de sua curta história. Com um governador cassado recém-libertado da prisão, um quinto da população morando em áreas irregulares, o lago que a serve assoreando e a maior desigualdade de renda do país, os brasilienses se questionam se há mesmo o que comemorar.

A cidade vive um paradoxo: os problemas se colocam ao lado de virtudes como a qualidade de vida superior à média das metrópoles, as áreas verdes e a arquitetura única. Acabou erodida pelos escândalos locais e importados, que lhe imputaram a pecha de antro de corrupção. "O carioca é malandro; o baiano, preguiçoso; e o brasiliense, corrupto", diz Nicolas Behr, poeta radicado na cidade há 35 anos, citando preconceitos regionais correntes.

Behr é o autor das camisetas que circulam pela cidade com os dizeres: "Sou de Brasília, mas juro que sou inocente". A estampa surgiu após o mais recente escândalo, o chamado mensalão do DEM, que derrubou toda a cúpula do governo local e colocou a cidade sob risco de intervenção federal.

Em imagens divulgadas na televisão e na internet, deputados distritais da base aliada foram pegos recebendo o que, segundo investigação da Polícia Federal, seria propina para que as votações na Câmara Legislativa corressem como queria o governo. Pego recebendo dinheiro e orientando a distribuição dele, o governador José Roberto Arruda ficou dois meses preso e acabou cassado.

"A sociedade brasiliense, trabalhadora, é a luz no fim do túnel", defende o maestro Rênio Quintas, um dos coordenadores da festa independente, "Brasília, outros 50", que ocorre desde ontem na cidade.

Um dos projetos que teria sido aprovado sob a influência do mensalão, segundo o denunciante do esquema, é o que chancelou o Plano Diretor de Ordenamento Territorial, questionado pelo Ministério Público. Segundo Cássio Taniguchi, ex-secretário de desenvolvimento urbano do DF e um dos responsáveis pelo plano, o projeto só aumenta a densidade em uma região e cria novas áreas de preservação. A situação, porém, continua longe da desejável, diz ele: 500 mil pessoas vivendo em terras irregulares, concentração de empregos no centro, transporte precário e falta de planejamento.

O ex-secretário apresenta um dado que mostra a dependência das cidades-satélite do Plano Piloto, única região tombada como patrimônio da humanidade: enquanto 70% dos empregos estão concentrados no Plano Piloto, 80% da população habita fora dele, o que gera um movimento pendular "maluco", afirma Taniguchi.

A necessária movimentação para o centro, aliada a um transporte público que deixa a desejar, colabora para aumentar o fluxo de veículos. Apesar de a frota brasiliense ter tido crescimento levemente inferior à média nacional de 1987 a 2009, o Distrito Federal já tem hoje a 12ª maior frota entre os Estados, mas seu território corresponde a 26% da área do menor Estado do país --Sergipe.

Disparidade

A relação Plano Piloto-satélites também mostra grande disparidade econômica. Embora o o DF tenha a maior renda per capita do país e Índice de Desenvolvimento Humano de país ultracivilizado, tem também o maior índice de Gini (ou seja, a maior desigualdade na distribuição da renda do Brasil), segundo a Pnad de 2008.

A média salarial do Lago Sul (bairro mais nobre) era de 43,4 salários mínimos, contra 1,6 em Itapoã e 2,8 no Varjão (áreas em que pelo menos parte da ocupação é irregular), em 2004.

Tamanha desigualdade gera apreensão dos brasilienses quanto ao crescimento da violência, como ondas de sequestros relâmpagos recentes.

Dados da Polícia Civil, dos últimos dois anos e meio, apontam o crescimento da apreensão de maconha e sobretudo de crack (4,3 kg em 2008 e 11,9 kg em 2009) e a redução da quantidade de cocaína apreendida.
Por que Brasília, planejada pelo urbanista Lucio Costa para evitar "uma indevida e indesejável estratificação", chega ao cinquentenário desta forma?

Segundo especialistas, pela falta de preocupação com o crescimento. "A base do problema é a falta de planejamento regional", diz Alfredo Gastal, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no DF. Para Frederico Flósculo, professor de arquitetura da Universidade de Brasília, "o principal problema é o Plano Piloto ter sido visto como um objeto; ele deveria ter sido um guia para o crescimento que viesse a seguir. Brasília é um improviso só".

Faltou preservar a área próxima do Plano Piloto, que influi diretamente na região tombada, diz Maria Elisa Costa, filha do urbanista: "A grande ameaça é que a especulação imobiliária cerque a área tombada com uma paliçada de torres de 20, 30 andares, isolando Brasília dos 360º de horizonte do planalto, quando a relação da cidade com sua paisagem natural faz parte da partitura original".


Do Uol

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